Terras raras: o RS não precisa de uma mina para entrar nesse jogo
- 11 de jun.
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A nova cadeia mineral se decide na fábrica, no laboratório e na engenharia, não apenas no subsolo. E nesse terreno, o estado tem ativos que poucos lugares no Brasil reúnem.
Por Eric Fernando Boeck Daza
A pergunta sobre terras raras no Rio Grande do Sul, quando aparece em conversas públicas, costuma ter uma forma simples: o estado tem? Vai ter mina? Vamos virar produtores? A pergunta é compreensível. O tema entrou no noticiário pelo viés da disputa geopolítica entre Estados Unidos e China, dos anúncios de descoberta, da narrativa do minério estratégico. Mas essa é a pergunta errada. E é a pergunta errada quando o Brasil acaba de criar instrumentos legais e financeiros novos para a cadeia, e em que o Rio Grande do Sul ainda reconstrói sua economia depois das enchentes de 2024.
Terras raras são um grupo de dezessete elementos químicos usados em tecnologias de alto desempenho. O nome engana. Não são raras na natureza. Raro é encontrá-las em concentração suficiente, separá-las com precisão industrial e transformá-las em materiais de alto desempenho para serem usados em motores elétricos, em parte das turbinas eólicas modernas, em robôs, em equipamentos médicos e em sistemas de defesa. A mina é o começo da frase. O ponto final é a tecnologia.
O Brasil ainda precisa compreender isso. A produção mundial de terras raras foi estimada em cerca de 390 mil toneladas em 2025, com a China respondendo por 270 mil. O Brasil tem cerca de 21 milhões de toneladas em reservas conhecidas, a segunda maior reserva mundial. Porém sua produção é de algo próximo de 0,5% do total global. Porque ter reserva não é o mesmo que ter indústria.
A China entendeu isso antes de todos. Não dominou a cadeia porque tinha mina. Dominou porque construiu, ao longo de décadas, capacidade industrial, química, metalúrgica e tecnológica. Além de ser o maior produtor hoje, a China concentra cerca de 90% do processamento e refino de terras raras. O verdadeiro gargalo está aí. A disputa se decide nas fábricas capazes de separar elementos, produzir materiais e abastecer motores, turbinas e equipamentos avançados.
O Brasil começa a se mobilizar. BNDES e Finep selecionaram 56 projetos em minerais estratégicos, com R$ 45,8 bilhões em investimento previsto, dos quais 10 são de terras raras. Não é dinheiro público desembolsado, é uma carteira que mostra que o tema entrou na agenda real de financiamento. A Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos, aprovado na Câmara em maio de 2026 e remetido ao Senado, estrutura uma política nacional para esses minerais. O país começa a criar instrumentos para sair da condição de exportador potencial de minério e entrar nos elos de maior valor.
O Rio Grande do Sul precisa se localizar nessa moldura. O erro seria olhar para o mapa mineral, procurar uma jazida madura e concluir que o estado está fora do jogo. Não está. O Rio Grande do Sul já é participante dessa cadeia, por outro: pela demanda. Parte das turbinas eólicas modernas, especialmente projetos offshore, usa ímãs permanentes com terras raras. A base automotiva de Gravataí está conectada a uma indústria global em eletrificação acelerada, que dependerá cada vez mais de motores, eletrônica e materiais críticos. A agenda de hidrogênio verde e de energia offshore que se desenha para o estado reforça essa entrada em cadeias tecnológicas intensivas em materiais avançados. Cada um desses investimentos aumenta a dependência de componentes sofisticados que hoje vêm majoritariamente da Ásia.
Essa demanda, encarado como ativo, muda a equação. Demanda previsível é matéria-prima de política industrial e essencial para setores novos como esse. Quem compra em volume tem poder de barganha sobre quem fornece e pode atrair fabricação para perto. O Rio Grande do Sul tem essa demanda e tem a base para fazer essa virada. UFSM, UFRGS, Unipampa, PUCRS e Unisinos formam um conjunto de competência em ciência de materiais, química e engenharia que poucos estados brasileiros conseguem reunir. O polo químico de Triunfo concentra experiência industrial em processos químicos complexos, escala operacional, fornecedores especializados e cultura de segurança. A indústria metalmecânica gaúcha, em torno de Caxias e da serra, tem tradição em motores, geradores e equipamentos de precisão. Universidade forte, química industrial consolidada, metalmecânica madura: é o perfil de quem entra no elo do processamento e da manufatura, onde está o valor da nova cadeia.
A pergunta certa para o Rio Grande do Sul não é se vai ter mina, é como pode transformar seu potencial e demanda crescente em alavanca para participar dos elos onde está o valor da cadeia. E essa pergunta tem ingredientes claros, que precisam aparecer no debate público estadual. Primeiro, dimensionar a demanda: quanto de ímã, motor elétrico e eletrônica avançada os planos de eólica, eletrificação e hidrogênio vão exigir nesta década. Segundo, reconhecer onde a base instalada permite ao estado entrar com realismo. Universidade forte aponta para um lado, polo químico para outro, metalmecânica para um terceiro. Terceiro, conectar essa conversa aos instrumentos que existem agora: o marco legal do setor em analise, chamadas e linha dos BNDES em curso, e a janela política aberta pela reconstrução pós-enchente, que ainda está definindo vocações industriais. Demanda, base, instrumento. São esses três elementos que precisam estar na mesma mesa. Não como plano fechado, mas como agenda pública que ainda não existe.
Os ativos geológicos do estado cabem nessa moldura, no lugar que lhes corresponde. Pesquisas conduzidas por UFSM, UFRGS e Unipampa vêm estudando rochas carbonatíticas em Caçapava do Sul, em áreas como Passo Feio e Picada dos Tocos. Os resultados preliminares apontam concentrações relevantes em algumas amostras, ainda longe de significar jazida economicamente viável. Caçapava poderia colocar o Rio Grande do Sul no mapa da investigação sobre minerais estratégicos, por enquanto longe do mapa da produção. Se uma jazida comercial for confirmada nos próximos anos, será mais um elemento na equação. Apostar a estratégia estadual nesse cenário, isolado, é entregar o futuro a uma incerteza geológica de prazo indefinido. E isso tudo não é contra a mineração. É contra a pergunta pequena. O Rio Grande do Sul não deve perguntar apenas se tem uma mina de terras raras. Deve perguntar se tem uma estratégia para participar da cadeia das terras raras. A diferença é decisiva. A primeira pergunta olha para baixo, para o subsolo. A segunda olha para frente, para a indústria. E nós temos potencial de estarmos em uma posição de destaque.
Terras raras não são o novo petróleo. Petróleo se queima. Terras raras ficam dentro do motor, da turbina e do ímã por anos. O jogo é outro. E, nesse jogo, o Rio Grande do Sul não precisa esperar uma grande mina para entrar. Precisa reconhecer que o valor está cada vez mais no laboratório, na fábrica e na engenharia. O subsolo pode abrir a conversa. A inteligência industrial decide quem fica com o futuro.




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