Um ano de Trump 2.0: quando energia voltou a ser poder, e clima virou custo político
- 3 de fev.
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Por Eric Fernando Boeck Daza
Janeiro de 2025 marcou não apenas a posse de Donald Trump para um segundo mandato, mas o início de uma reconfiguração estratégica em que Washington redefiniu energia como instrumento de projeção geopolítica. Doze meses depois, o balanço mostra uma administração que usou cada alavanca disponível, do Código Tributário à política externa, das licenças ambientais às operações militares, para subordinar a agenda climática a uma visão de "dominância energética americana".
Quando Trump retornou à Casa Branca em 20 de janeiro de 2025, muitos esperavam retórica anti-clima, mas poucos previram a amplitude sistêmica da transformação. O primeiro ano não foi apenas sobre "sair do Acordo de Paris", movimento anunciado no dia da posse e tornado efetivo em 2026. Foi sobre redesenhar os incentivos econômicos que havia, desde 2022, direcionado centenas de bilhões de dólares privados para a transição energética americana.
Paris foi o símbolo. O Inflation Reduction Act foi o campo de batalha.
Embora Trump tenha formalmente notificado a retirada dos Estados Unidos do Acordo de Paris no primeiro dia de governo, o verdadeiro pivô aconteceu em julho, quando o Congresso Republicano aprovou o One Big Beautiful Bill Act (OBBB). Esse pacote fiscal não revogou integralmente o Inflation Reduction Act de Biden — politicamente inviável, dado que a maioria dos projetos beneficiados se concentra em distritos republicanos , mas alterou prazos e elegibilidade de créditos tributários críticos.
O resultado prático: créditos para veículos elétricos novos e usados foram encerrados em setembro de 2025, meses antes do previsto. Créditos residenciais para energia solar, que sustentavam a expansão da geração distribuída, terminaram em dezembro. Em agosto, o IRS publicou diretrizes que, na prática, sinalizaram aos desenvolvedores: janelas de investimento mais curtas, maior incerteza regulatória, custo de capital mais alto.
Para um setor que vive de visibilidade de longo prazo, foi um choque calculado. Segundo a GlobalData, cancelamentos de projetos de energia limpa atingiram US$ 8 bilhões apenas no primeiro trimestre de 2025 e custos de projetos solares subiram entre 20% e 54% devido a tarifas sobre módulos e inversores importados.
Regulação como instrumento: EPA, DOE e o desmonte silencioso
Enquanto o debate público fixava-se em Paris e na Venezuela, sobre a qual falaremos, a Agência de Proteção Ambiental (EPA) executava uma engenharia regulatória de desmontagem. Em junho de 2025, a EPA propôs revogar integralmente os padrões de emissões de gases de efeito estufa para usinas termelétricas sob a seção 111 do Clean Air Act, alegando que a contribuição americana para emissões globais não justificava a regulação. Em julho, avançou ainda mais: propôs revogar o Endangerment Finding de 2009, a base científica que fundamenta toda autoridade federal para regular emissões de GEE.
Esse movimento, se confirmado após processos judiciais, não apenas enfraqueceria controles sobre o setor elétrico, mas criaria precedente para desregular emissões veiculares, industriais e de óleo e gás. Um relatório do Departamento de Energia publicado em agosto, assinado por cinco céticos climáticos conhecidos, alegou que o aquecimento induzido por CO₂ "parece ser menos danoso economicamente do que se acredita". A Academia Nacional de Ciências respondeu que a evidência de dano por gases de efeito estufa está "além de disputa científica".
Paralelamente, o Departamento de Energia (DOE) cancelou, em setembro, 321 contratos associados a 223 projetos, alegando economizar US$ 7,56 bilhões. Projetos de modernização de rede, demonstração tecnológica e descarbonização industrial viram financiamento desaparecer da noite para o dia. A mensagem foi clara: contratos públicos em energia limpa tornaram-se "revisáveis" e investidores passaram a precificar risco político como nunca antes.
Eólica offshore: do memorando do dia 1 à suspensão em dezembro
No mesmo 20 de janeiro, Trump assinou memorando retirando todas as áreas do Outer Continental Shelf de novos leilões de energia eólica offshore. Em dezembro, foi além: suspendeu as licenças de cinco grandes projetos offshore já em construção: Vineyard Wind 1, Revolution Wind, Sunrise Wind, Empire Wind 1 e o Coastal Virginia Offshore Wind, o maior dos EUA.
A justificativa oficial: riscos à segurança nacional identificados pelo Pentágono. Pás de turbinas e torres "altamente refletivas" gerariam "ruído" em sistemas de radar, obscurecendo alvos legítimos. Críticos apontaram que esses projetos haviam passado por anos de revisão do Departamento de Defesa, Guarda Costeira e Força Aérea durante o processo de licenciamento. Uma corte federal declarou, em dezembro, que o memorando inicial era "arbitrário e caprichoso". Mas o dano já estava feito.
COP30 em Belém: ausência como declaração
Quando o mundo se reuniu em Belém, em novembro de 2025, para a COP30, com o Brasil tentando catalisar implementação de compromissos , os Estados Unidos estavam ausentes. Pela primeira vez em 30 anos de conferências climáticas da ONU, Washington não enviou delegação oficial.
O secretário de Energia, Chris Wright, chamou a COP de "essencialmente uma fraude" e disse que poderia comparecer "apenas para trazer algum bom senso". Enquanto isso, durante a semana da cúpula, a administração Trump anunciou planos para abrir perfuração de petróleo nas costas da Califórnia e Flórida, vedadas há décadas, e propôs mudanças que reduziriam proteções a zonas úmidas e espécies ameaçadas.
A ausência foi preenchida por governadores, ex-vice-presidente Al Gore e organizações da sociedade civil. Contudo, o sinal geopolítico já estava dado.
Venezuela: quando energia novamente evidencia a geopolítica
E então veio o episódio mais dramático: na madrugada de 3 de janeiro de 2026, forças americanas capturaram Nicolás Maduro em Caracas, na chamada "Operação Absolute Resolve". Trump anunciou que os EUA "administrariam" a Venezuela temporariamente.
Para além da polêmica jurídica e diplomática, o episódio recolocou petróleo venezuelano no radar geopolítico. Trump afirmou que empresas americanas queriam "entrar tão intensamente" para reconstruir a infraestrutura petroleira. A mistura entre sanções, intervenção militar e recursos energéticos ilustrou a lógica trumpiana: energia não é apenas commodity, é instrumento de poder. Quando segurança e petróleo se misturam, a agenda climática perde centralidade.
Groenlândia: a contradição climática que Trump não admite
Outro front inesperado foi a Groenlândia, e nele reside uma das maiores contradições da política energética trumpiana. Trump, que já havia tentado comprar o território dinamarquês em seu primeiro mandato, retomou a ofensiva. Em dezembro de 2025, nomeou o governador da Louisiana, Jeff Landry, como enviado especial com a missão declarada de "tornar a Groenlândia parte dos EUA".
A justificativa oficial era segurança nacional, alertando sobre navios russos e chineses "por toda parte" ao redor da ilha. Mas a retórica escondia uma ironia brutal: a Groenlândia só se tornou estrategicamente acessível por causa das mudanças climáticas que Trump insiste em negar.
O degelo acelerado do Ártico, está abrindo três frentes simultaneamente: (1) novas rotas marítimas comerciais e militares que encurtam distâncias entre Europa, Ásia e América; (2) acesso facilitado a reservas estimadas de 31 bilhões de barris de petróleo e trilhões de metros cúbicos de gás natural; (3) depósitos de terras raras, lítio, grafite e outros minerais críticos para baterias e tecnologia, antes inacessíveis sob camadas de gelo permanente.
Trump quer a Groenlândia exatamente pelos efeitos das mudanças climáticas, mas não pode dizê-lo abertamente. É uma política energética que opera na contradição: negar a mudança climática em casa, mas posicionar-se estrategicamente para seus efeitos lá fora.
A Dinamarca e a Groenlândia rejeitaram categoricamente. Trump ameaçou tarifas de 10% sobre produtos dinamarqueses e de outros sete países europeus que participassem da operação militar na região. A crise escalou até janeiro de 2026, quando recuou em Davos. O soft power americano sangrou e a hipocrisia energética ficou exposta.
O que sobrou da transição energética
Doze meses de Trump 2.0 enterraram três ilusões sobre a economia de baixo carbono.
Primeira: que países ricos seriam portos seguros para investimento limpo. Não são. Quando a maior economia do mundo trata créditos tributários como moeda de barganha e licenças ambientais como arma política, o custo de capital para projetos renováveis sobe em qualquer lugar.
Segunda: que tecnologia venceria sozinha. Não vence. Painéis solares mais baratos não compensam tarifas de 54% sobre importação. Baterias melhores não salvam fábricas quando o governo cancela US$ 7,56 bilhões em contratos da noite para o dia. A disputa é institucional: quem oferece previsibilidade captura investimento; quem oferece caos, perde.
Terceira: que compromisso moral sustenta política climática. Não sustenta. Quando Maduro, Groenlândia, déficits fiscais e eleições de meio de mandato entram na equação, sobrevivem as políticas ancoradas em emprego, competitividade, segurança energética e não em promessas de 2050.
A janela brasileira
E o Brasil? Depois de sediar a COP30 e assistir ao vácuo americano, o país está diante de uma oportunidade.
A vantagem competitiva existe: matriz elétrica 90% renovável, bioenergia em escala, alta potencial eólico e solar a ser desenvolvido. Mas potencial apenas não é suficiente. O que decide é execução: rede de transmissão que saia do papel, mercado de carbono que funcione de verdade, investimentos em execução, contratos de longo prazo que bancos aceitem financiar.
Trump ensinou uma lição brutal para quem ainda acredita em transição energética: não se faz com discurso. Se faz com políticas estáveis e mercados que funcionem. E num mundo em que Washington decidiu encarecer o futuro limpo, quem oferece previsibilidade e chega primeiro ao mercado fica com o capital. O resto é apenas narrativa.




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