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Um ano de Trump 2.0: quando energia voltou a ser poder, e clima virou custo político

  • 9 de abr
  • 3 min de leitura

Por Eric Fernando Boeck Daza


Janeiro de 2025 marcou não apenas a posse de Donald Trump para um segundo mandato, mas o início de uma reconfiguração estratégica em que Washington redefiniu energia como instrumento de projeção geopolítica. Doze meses depois, o balanço mostra uma administração que usou cada alavanca disponível, do Código Tributário à política externa, das licenças ambientais às operações militares, para subordinar a agenda climática a uma visão de "dominância energética americana".

 

Paris foi o símbolo. O Inflation Reduction Act foi o campo de batalha

Embora Trump tenha formalmente notificado a retirada dos Estados Unidos do Acordo de Paris no primeiro dia de governo, o verdadeiro pivô aconteceu em julho, quando o Congresso Republicano aprovou o One Big Beautiful Bill Act (OBBB). Esse pacote fiscal alterou prazos e elegibilidade de créditos tributários críticos do Inflation Reduction Act de Biden.

O resultado prático: créditos para veículos elétricos foram encerrados em setembro de 2025, meses antes do previsto. Créditos residenciais para energia solar terminaram em dezembro. Para um setor que vive de visibilidade de longo prazo, foi um choque calculado. Segundo a GlobalData, cancelamentos de projetos de energia limpa atingiram US$ 8 bilhões apenas no primeiro trimestre de 2025 e custos de projetos solares subiram entre 20% e 54% devido a tarifas sobre módulos importados.

 

Regulação como instrumento: EPA, DOE e o desmonte silencioso

Enquanto o debate público fixava-se em Paris e na Venezuela, a Agência de Proteção Ambiental (EPA) executava uma engenharia regulatória de desmontagem. Em junho de 2025, a EPA propôs revogar os padrões de emissões de GEE para usinas termelétricas. Em julho, avançou ainda mais: propôs revogar o Endangerment Finding de 2009, a base científica que fundamenta toda autoridade federal para regular emissões.

Paralelamente, o Departamento de Energia (DOE) cancelou, em setembro, 321 contratos associados a 223 projetos, alegando economizar US$ 7,56 bilhões. A mensagem foi clara: contratos públicos em energia limpa tornaram-se "revisáveis".

 

Eólica offshore e COP30: ausência como política

Também em janeiro, Trump assinou memorando retirando todas as áreas do Outer Continental Shelf de novos leilões de energia eólica offshore. Em dezembro, suspendeu as licenças de cinco grandes projetos já em construção, incluindo o Coastal Virginia Offshore Wind, o maior dos EUA. Uma corte federal declarou o memorando "arbitrário e caprichoso", mas o dano já estava feito.

Quando o mundo se reuniu em Belém em novembro de 2025 para a COP30, os Estados Unidos estavam ausentes pela primeira vez em 30 anos. O secretário de Energia chamou a COP de "essencialmente uma fraude". Durante a semana da cúpula, a administração Trump anunciou planos para abrir perfuração de petróleo nas costas da Califórnia e Flórida, vedadas há décadas.

 

Venezuela e Groenlândia: energia como instrumento geopolítico

Na madrugada de 3 de janeiro de 2026, forças americanas capturaram Nicolás Maduro em Caracas. Trump anunciou que os EUA "administrariam" a Venezuela temporariamente. O episódio recolocou petróleo venezuelano no radar geopolítico e ilustrou a lógica trumpiana: energia não é apenas commodity, é instrumento de poder.

A Groenlândia revelou a maior contradição da política energética trumpiana. Trump retomou a ofensiva para adquirir o território dinamarquês, justificando segurança nacional. Mas a Groenlândia só se tornou estrategicamente acessível por causa das mudanças climáticas que Trump insiste em negar.

O degelo acelerado do Ártico está abrindo: (1) novas rotas marítimas; (2) acesso a reservas estimadas de 31 bilhões de barris de petróleo; (3) depósitos de terras raras e minerais críticos antes inacessíveis. Trump quer a Groenlândia exatamente pelos efeitos das mudanças climáticas, mas não pode dizê-lo abertamente. É uma política que opera na contradição: negar a mudança climática em casa, mas posicionar-se estrategicamente para seus efeitos lá fora.

 

O que sobrou da transição energética

Doze meses de Trump 2.0 enterraram três ilusões sobre a economia de baixo carbono.

Primeira: que países ricos seriam portos seguros para investimento limpo. Não são. Quando a maior economia do mundo trata créditos tributários como moeda de barganha, o custo de capital para projetos renováveis sobe em qualquer lugar.

Segunda: que tecnologia venceria sozinha. Não vence. A disputa é institucional: quem oferece previsibilidade captura investimento; quem oferece caos, perde.

Terceira: que compromisso moral sustenta política climática. Não sustenta. Sobrevivem as políticas ancoradas em emprego, competitividade e segurança energética, não em promessas de 2050.

 

A janela brasileira

Depois de sediar a COP30 e assistir ao vácuo americano, o Brasil está diante de uma oportunidade. A vantagem competitiva existe: matriz elétrica 90% renovável, bioenergia em escala, alto potencial eólico e solar. Mas potencial apenas não é suficiente. O que decide é execução: rede de transmissão que saia do papel, mercado de carbono que funcione, contratos de longo prazo que bancos aceitem financiar.

Trump ensinou uma lição brutal: transição energética não se faz com discurso. Se faz com políticas estáveis e mercados que funcionem. Num mundo em que Washington decidiu encarecer o futuro limpo, quem oferece previsibilidade e chega primeiro ao mercado fica com o capital. O resto é apenas narrativa.

 

 
 
 

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