A Corrida pelos Minerais Críticos: Nova Era, Velhas Desigualdades?
- 3 de fev.
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Por Eric Fernando Boeck Daza
Por décadas, o poder econômico e geopolítico esteve nas mãos de quem controlava o petróleo e o gás. Agora, com a transição energética, essa dinâmica está mudando — mas será que estamos apenas substituindo uma dependência por outra? Minerais críticos como lítio, cobalto e terras raras são essenciais para painéis solares, baterias e veículos elétricos, mas sua concentração em poucos países levanta novos desafios e riscos. Se no século XX o petróleo definia o poder, no século XXI são os chamados minerais críticos que moldam a nova economia da energia: A China domina o refino global de lítio e terras raras; A República Democrática do Congo produz a maior parte do cobalto mundial; e o "Triângulo do Lítio" na América Latina (Argentina, Chile e Bolívia) abriga mais de 50% das reservas desse mineral.
Essa concentração pode reproduzir riscos econômicos e geopolíticos já vistos no setor do petróleo, como manipulação de preços e vulnerabilidade das cadeias de suprimentos. A promessa de uma transição sustentável pode, ironicamente, criar novas formas de desigualdade. A transição energética deveria descentralizar o sistema de energia, mas, na prática, a necessidade de materiais escassos está gerando novas tensões: (i) EUA e União Europeia tentam reduzir sua dependência da China com subsídios e políticas de incentivo à produção local; (ii) A China, por sua vez, restringiu a exportação de terras raras, replicando a estratégia de controle de mercado que a OPEP usou no passado; (iii) Quanto mais concentradas as cadeias produtivas, maior o risco de crises geopolíticas desestabilizarem a transição energética.
A questão é clara: segurança energética não se trata mais apenas de combustíveis fósseis, mas de quem controla os minerais que movem o futuro. Países ricos em minerais enfrentam um dilema antigo: (i) Possuem as matérias-primas, mas não a infraestrutura para processá-las; (ii) Empresas e nações desenvolvidas exploram os recursos, mas não investem na industrialização local. O mesmo ocorreu na era do petróleo: países produtores exportavam a matéria-prima, enquanto refinarias e indústrias petroquímicas ficavam no mundo desenvolvido. Sem uma mudança estrutural, a transição energética apenas reforçará as desigualdades existentes.
A transição para energia limpa não pode repetir os erros do passado. Estamos diante de um dilema: a nova economia energética será um motor de empoderamento econômico ou mais um capítulo na desigualdade global?
A transição é inevitável. A questão é se ela será justa.




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