Transição justa é política de emprego — e de cidade: Como proteger comunidades e destravar bons postos de trabalho na virada energética
- 3 de fev.
- 2 min de leitura
Por Eric Fernando Boeck Daza
Quando uma mina fecha ou uma usina a carvão desliga, não some só um contracheque. Vai junto um pedaço da identidade de um lugar — o bar da troca de turno, a escola técnica local, o uniforme herdado do pai. A transição energética não é o fim do emprego; é a mudança do mapa do trabalho.
Hoje, o setor de energia emprega mais 67 milhões de pessoas no mundo. Mais da metade — 35 milhões — está em atividades consideradas de limpas, superando os empregos com energias em fósseis. O recado é claro: a transição não é sobre eliminar trabalho, mas sim sobre criar oportunidades. A questão é quem acessa esses novos empregos e onde.
O que funciona
As experiências internacionais mostram que a chave é simples: qualificação só com empregador potencial. Cursos soltos não bastam. É preciso atrelar formação a projetos que de fato vão contratar, com metas de recolocação medidas em meses, não em anos.
Comunidades não vivem de estatística: Os números ajudam, mas não resolvem o drama territorial. A Espanha entendeu cedo: criou o Instituto para a Transição Justa e firmou acordos com municípios de regiões baseada em energia fóssil, garantindo que cada fechamento viesse acompanhado de obras, requalificação e novos negócios.
Outra engrenagem é usar o poder de compra do Estado. Leilões de energia, transmissão e renováveis não podem olhar só para a tarifa. Precisam dar peso ao valor social: aprendizes, compras locais, empregos formais. O Reino Unido já fez isso, reservando uma nota mínima em licitações para impacto social.
Licença social: empregos no centro
No Brasil, a agenda da transição energética, seja as energias renováveis ou até mesmo a exploração mineral, além das grandes obras só vai prosperar se vier com licença social para operar. Isso significa contratos transparentes, auditorias independentes, participação comunitária e, sobretudo, emprego local qualificado. Cada megawatt de energia nova ou cada tonelada de minério exportado precisa deixar valor no município que o abriga. Sem isso, a transição corre risco de virar só mais um ciclo extrativista.
A transição justa é urgente no Brasil
Não precisamos olhar para longe para entender a urgência.
Carvão no Sul: comunidades do entorno das usinas já sentem a queda da demanda e precisam de planos de diversificação econômica e qualificação.
Eólica e solar no Nordeste: são líderes em geração, mas os empregos de qualidade ainda ficam concentrados na fase de obra. O desafio é garantir ocupações permanentes e cadeias de fornecedores locais.
Mineração no Norte: gigantescos projetos de cobre, níquel e lítio estão em curso, mas a aceitação depende de vínculos claros com emprego, saúde e desenvolvimento comunitário.
O que falta
Não é falta de projetos, nem de investimento. O que falta é conectar investimentos a resultado social verificável: quantos aprendizes, quantas vagas locais, quantas famílias reempregadas.
Transição justa não é caridade. É política industrial de pessoas. É usar regras de crédito, compras públicas e licenciamento para transformar investimentos em emprego decente, trabalho local e orgulho comunitário. Se diversos países europeus têm conseguido dar dignidade ao fechamento de minas, não há por que o Brasil não liderar esse debate — com sotaque próprio e coragem de colocar o trabalhador no centro da transição.




Comentários