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De quem será a COP30?

  • 3 de fev.
  • 3 min de leitura

Por Eric Fernando Boeck Daza


A escolha de Belém como sede da COP30 foi, desde o início, um gesto geopolítico carregado de potência simbólica. Levar as negociações climáticas para o coração da Amazônia é, em si, uma mensagem política: de que o Brasil quer se recolocar no centro da governança climática, e que o Sul Global exige protagonismo.


Belém materializa a tentativa de reequilibrar o eixo político das conferências do clima, frequentemente centralizadas no Norte Global. É também uma resposta à crítica recorrente de que a floresta tem sido apenas paisagem de retórica internacional — agora, ela se torna palco. Mas entre o gesto e sua realização há uma lacuna que precisa ser enfrentada com lucidez. A poucos meses da conferência, temos uma pergunta essencial: quem, de fato, estará em Belém para decidir o futuro do planeta?


As negociações intermediárias realizadas em Bonn no mês de junho, que sucederam uma COP29 em Baku marcada por impasses e frustrações, foram ilustrativas. Enquanto pouco se avançou na implementação dos compromissos do Global Stocktake, na definição de indicadores de adaptação ou na operacionalização do financiamento climático, um tema cresceu de forma transversal e informal: o custo da participação na COP30. Hospedagens que podem custar mais de mais de R$ 50 mil por duas semanas, relatos de apartamentos alugados por centenas de milhares de reais, escassez de voos e infraestrutura básica insuficiente. Em um sistema em que a ONU não financia a presença das delegações, isso representa mais que um problema logístico: representa um filtro geopolítico de presença e de influência.


Essa equação não é neutra. Delegações de países vulneráveis, representantes da sociedade civil e povos tradicionais — que têm aportado voz, legitimidade e densidade às negociações climáticas — talvez simplesmente não consigam estar presentes. Já os atores mais financeiramente robustos — incluindo países desenvolvidos, instituições financeiras e empresas da indústria fóssil — não apenas estarão, como ampliarão sua presença, sua infraestrutura paralela e sua capacidade de moldar os termos do debate.


Esse deslocamento do centro de gravidade das COPs — cada vez menos arenas políticas entre Estados e cada vez mais feiras de negócios climáticos de alta escala — precisa ser reconhecido com franqueza. E quando a barreira de entrada é imposta não pelo idioma, nem pelas regras de credenciamento, mas pelo custo da estadia e da mobilidade, o processo corre o risco de romper o frágil equilíbrio entre multilateralismo formal e legitimidade social.


Isso importa. Porque a COP30 é mais do que uma conferência: é o primeiro grande momento político após o Global Stocktake finalizado em Dubai e os impasses não resolvidos em Baku. É quando os países devem apresentar novos compromissos climáticos. É quando se espera avançar na agenda da transição justa, da adaptação e do financiamento — temas que seguem travados justamente por falta de confiança entre as partes. Uma COP desigual, capturada por lógicas de mercado e interesses corporativos, só aprofundará esse abismo.


Sem acesso, não há escuta. Sem escuta, não há acordo. Sem acordo, não há futuro.

O governo brasileiro tem ciência dos riscos — e sabe o que está em jogo. A presidência da COP30 tem buscado construir uma agenda com ambição política, diplomacia ativa e uma narrativa climática que reposicione o país. Mas isso não será suficiente se a conferência for marcada pela ausência de quem mais deveria estar lá. A credibilidade da COP30 não será medida por declarações de encerramento, mas pela coerência entre discurso e participação.

Belém pode — e deve — ser o marco de uma nova fase da diplomacia climática, conectando a centralidade ecológica da Amazônia com uma nova lógica de governança baseada em equidade, acesso e diversidade de perspectivas. Mas isso só será possível se o espaço político da floresta não for reservado aos que sempre estiveram no centro, e sim aberto àqueles que historicamente foram deixados à margem.


A floresta estará lá. O palco está montado. Mas a legitimidade da COP30 não será medida por imagens aéreas de barcos nos rios amazônicos — será medida por quem ocupou os assentos nas salas de negociação. E, sobretudo, por quem ficou de fora.


 
 
 

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