Novo papa, velhos desafios e a urgência da justiça climática
- 3 de fev.
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Especialista em mudanças climáticas reflete sobre o papel de Leão XIV na transformação ética e prática da luta ambiental
O início do pontificado de Leão XIV marca mais do que uma mudança de liderança na Igreja Católica — representa uma oportunidade histórica para fortalecer a justiça climática como missão ética, espiritual e global. É o que afirma Eric Fernando Boeck Daza, especialista em energia e mudanças climáticas, em artigo que destaca a relevância do novo papa diante da emergência ambiental que se intensifica no planeta.
Leão XIV assume o comando de 1,4 bilhão de católicos num momento em que os efeitos da crise climática, antes tratados como previsões científicas, são hoje parte da realidade cotidiana. Como lembra o autor, o impacto desse desequilíbrio não é uniforme: os países menos responsáveis pelas emissões de gases de efeito estufa são justamente os que mais sofrem suas consequências. No Brasil, isso se traduz em eventos extremos, comunidades ribeirinhas ameaçadas, incêndios na Amazônia e apagões urbanos.
O artigo rememora o legado de Francisco, o primeiro papa latino-americano, que fez história ao transformar o debate ambiental em causa moral por meio da encíclica Laudato Si’. Francisco denunciou o consumismo, valorizou os saberes indígenas e rechaçou a Doutrina da Descoberta, conectando fé e ecologia com profundidade. Leão XIV, segundo Daza, herda essa missão — mas também a responsabilidade de dar passos concretos, passando da denúncia à ação transformadora.
Com cidadania peruana e nascido nos Estados Unidos, o novo papa possui vínculos fortes com a América Latina, fala quíchua e já se manifestou pela proteção da Amazônia. Seu perfil multicultural e sua experiência junto a comunidades indígenas o colocam, nas palavras do autor, como elo entre o Norte global que precisa mudar e o Sul global que clama por justiça.
O texto também chama atenção para um alerta importante: a transição energética global, se não for guiada por princípios de equidade, pode reproduzir as mesmas lógicas de exploração do passado, agora em nome da sustentabilidade. O risco é que a corrida por minerais, terras e investimentos verdes aprofunde desigualdades históricas.
Nesse contexto, a Igreja Católica pode desempenhar um papel decisivo. Sua capilaridade — com mais de 200 mil escolas e 10 mil hospitais em funcionamento no mundo — confere-lhe um alcance maior do que qualquer organização ambiental. Se colocada a serviço da justiça climática, com apoio a projetos concretos e formação de base, seu impacto pode ser transformador.
Daza encerra o artigo com uma convocação: a presença do Papa Leão XIV na COP30, que ocorrerá em Belém do Pará em novembro, seria um marco simbólico e prático. Pela primeira vez, a cúpula climática da ONU será sediada na Amazônia — um território central para o equilíbrio climático do planeta. “O novo papa tem a biografia, o momento e a autoridade para isso. E o Brasil, com seus desafios e oportunidades, pode ser o palco da virada”, conclui.
Sobre o autor
Eric Fernando Boeck Daza é especialista em energia, transição energética e mudanças climáticas, com mais de 15 anos de experiência internacional. Atua junto a governos, instituições multilaterais e organizações privadas. Atualmente trabalha nas Nações Unidas (PNUMA) e é um dos coordenadores da LAC Clean Hydrogen Action Alliance.




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