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O preço de não adaptar: por que clima é política socioeconômica

  • 3 de fev.
  • 4 min de leitura

Por Eric Fernando Boeck Daza

Todo ano, o mundo “redescobre” o óbvio: os desastres climáticos ficaram mais caros, mais frequentes e mais desiguais. O último relatório global da ONU sobre risco de desastres estima perdas diretas em torno de US$ 200 bilhões por ano – e algo perto de US$ 2,3 trilhões anuais quando se somam impactos indiretos, perdas de produtividade e danos a ecossistemas.


Esse número não é só sobre “meio ambiente”. É uma conta estrutural da economia global, que pressiona orçamentos públicos, seguros, cadeias produtivas e o custo de vida. Ainda assim, a forma como falamos de adaptação climática segue presa a gráficos de temperatura e parágrafos negociados em COPs, não a decisões concretas sobre quem vai perder a casa, o emprego e o pequeno negócio no próximo evento extremo.



O custo de não adaptar: trilhões na economia, milhões na pobreza

O Banco Mundial estima que, sem um desenvolvimento rápido e “climate-informed”, as mudanças climáticas podem empurrar mais de 100 milhões de pessoas para a pobreza extrema até 2030, revertendo parte dos avanços dos últimos 30 anos. Não é uma projeção distante: é a década em que já estamos.


Ao mesmo tempo, a ONU calcula que o mundo “economiza” no curto prazo quando deixa de investir em adaptação, mas assume uma conta anual de desastres que se aproxima de US$ 2,3 trilhões quando se considera o impacto total sobre economias e sociedades. Cada enchente sem plano de drenagem, cada seca sem seguro adequado, cada bairro precário construído em área de risco são decisões – ou omissões – que se acumulam nessa fatura.


Financiamento – o problema é para quem e para quê

Quando olhamos para os fluxos globais, o paradoxo fica ainda mais explícito. O Adaptation Gap Report do PNUMA mostra que os países em desenvolvimento vão precisar de algo como US$ 310–365 bilhões por ano em 2035 só para adaptação. Contudo em 2023, o financiamento público internacional de adaptação chegou a US$ 26 bilhões, ou seja, o mundo está entregando cerca de um décimo do necessário, ainda que a última COP coloque a meta de triplicar o valor atual, ainda estaremos longe do que é necessário.

Do ponto de vista econômico, isso é irracional. O mesmo Banco Mundial calcula que, em países de baixa e média renda, cada US$ 1 investido em infraestrutura resiliente gera em média US$ 4 em benefícios


Em qualquer outro tema, chamaríamos isso de oportunidade de investimento. Em adaptação, seguimos tratando como gasto residual, muitas vezes atrelado a projetos-piloto, pequenos editais e linhas de crédito marginais.


E o Brasil?

No Brasil, essa contradição ganha rosto e CEP. Somos apresentados ao mundo como potência verde, com matriz elétrica limpa e enorme potencial em renováveis. Mas, dentro de casa, a fotografia é outra: cidades que param com a primeira chuva mais forte, regiões inteiras sob risco de seca prolongada, periferias expostas a ondas de calor sem arborização, saneamento ou moradia adequada.


O país ainda segue entre os mais desiguais da América Latina, com concentração de pobreza regionais, déficits de saneamento e habitação e forte dependência de atividades sensíveis ao clima, como agro. Em outras palavras, uma parcela importante da população vive exatamente onde o risco físico encontra a vulnerabilidade social.


Quando uma enchente arrasta casas em área de ocupação precária, não é “apenas” um evento climático: é o resultado acumulado de políticas de habitação que não saíram do papel, de transporte urbano que empurra os mais pobres para longe, de investimentos em saneamento e drenagem adiados por décadas. Quando a seca aperta e a produção cai, isso se traduz em inflação de alimentos, perda de renda no campo, pressão sobre programas sociais. O clima é o gatilho; a estrutura socioeconômica é o pavio.


É por isso que, no Brasil, falar de adaptação climática sem falar de desenvolvimento regional, política urbana, proteção social e planejamento econômico é falar pela metade. A pergunta não é se vamos adaptar “o clima”, mas como vamos reorganizar políticas públicas para que o próximo extremo não empurre mais uma geração para a pobreza.


Adaptação como vetor de desenvolvimento – não como plano B

Quando se observa o conjunto de evidências, a conclusão é quase constrangedora: adaptar é um bom negócio. O que falta não é apenas justificativa econômica, mas decisão política para tratar drenagem, saneamento, habitação segura, saúde preparada para ondas de calor e proteção de cadeias produtivas como núcleo duro da estratégia de crescimento, não como “planos especiais” que aparecem depois da tragédia.


Isso vale em especial para o Brasil, que possui vária politicas publicas que direcionam investimentos. Uma escola adaptada a calor extremo é também um ambiente mais saudável para aprender; uma rede de saneamento e drenagem em periferias é, ao mesmo tempo, política de saúde, de emprego e de dignidade urbana; um programa de crédito e seguro de que considere secas e enchentes recorrentes é, ao mesmo tempo, política agrícola e de estabilidade de renda. Adaptação deixa de ser plano B ambiental para se tornar plano A de desenvolvimento, se for desenhada com essa lente.


Adaptar para proteger gente, renda e futuro

No fundo, a escolha é simples. Ou continuamos tratando adaptação como nota de rodapé ambiental – e aceitamos um futuro de reconstruções intermináveis, orçamentos em crise e desigualdades aprofundadas – ou reconhecemos que ela é um dos principais vetores de desenvolvimento do Brasil nas próximas décadas.


Adaptação correta significa menos gente perdendo tudo em cada enchente, menos crianças fora da escola a cada desastre, menos empresas quebrando por falta de seguro ou crédito, menos dinheiro público queimado em obras provisórias. Significa mais empregos locais em obras necessárias, mais produtividade em cidades que não param com a primeira tempestade, mais estabilidade para quem vive na base da pirâmide.


Se o clima já mudou, a política pública não pode continuar igual.

Adaptação climática não é o “parágrafo verde” dos planos: é a chave para um país mais justo, mais resiliente – e com uma economia que funcione mesmo quando o tempo vira.


 
 
 

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