Terras raras no RS: o papel estratégico do Rio Grande do Sul poderia ter na nova geopolítica da energia
- 3 de fev.
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Por Eric Fernando Boeck Daza
Em meio à crescente tensão entre China e Estados Unidos, e à escalada tarifária de 50% imposta pelo governo Trump sobre importações brasileiras, um novo capítulo da geopolítica dos recursos críticos está se desenhando e surpreendentemente, poderia passar pelo fundo do mar gaúcho.
A Elevação do Rio Grande (ERG), uma formação geológica submarina localizada a mais de mil km da costa do Rio Grande do Sul, emergiu nas últimas semanas como um dos principais ativos estratégicos no novo tabuleiro global das chamadas terras raras. Trata-se de uma área do tamanho da Espanha, onde estudos recentes da USP apontam a presença de minerais essenciais para a transição energética, insumos fundamentais para a fabricação de turbinas eólicas, baterias, carros elétricos e equipamentos militares.
A ERG é mais do que uma formação geológica: poderia ser uma nova fronteira de mineral e climática. A região vem sendo analisada há mais de uma década, mas voltou aos holofotes após a intensificação pelos minerais críticos e terras raras. O Brasil já apresentou um pedido à Comissão de Limites da Plataforma Continental da ONU para incorporar a região à sua zona econômica exclusiva. O argumento: a conexão geológica da ERG com o continente sul-americano. A implicação: se for aceito, o Brasil terá o direito exclusivo de explorar os recursos da área, abrindo uma oportunidade rara — e valiosa — de protagonismo global.
Afinal, embora essa região esteja a mais de mil quilômetros da costa, ela projeta o litoral gaúcho como ponto geopolítico e logístico estratégico. O RS poderia se tornar hub de operações científicas, tecnológicas e até diplomáticas ligadas à mineração submarina e à cadeia dos minerais críticos. Não é exagero dizer que a disputa por terras raras definirá a próxima década — e o Brasil tem menos de 1% da produção global. Em contrapartida a China controla mais de 90% do refino mundial, o que lhe confere uma vantagem estratégica sem paralelo. Os Estados Unidos, por sua vez, buscam fornecedores confiáveis e alternativos, diante do risco real de interrupções, como as já impostas por Pequim desde 2023.
Nesse contexto, o Brasil, com sua estabilidade institucional, abundância mineral e capacidade científica, pode surgir como peça-chave. O RS, por sua vez, pode ganhar centralidade ao combinar litoral estratégico, histórico de pesquisa geológica e protagonismo industrial.
Contudo, o momento atual pode ser uma oportunidade ou uma ameaça, após o governo Trump elevar tarifas de 50% sobre produtos brasileiros, cabe ao Brasil agora decidir se verá isso como uma oportunidade de novas negociações e parcerias estratégicas, ou irá seguir o caminho de países como China e confrontar tais restrições. Ou ainda, a reação brasileira a esse novo ciclo de tensões deveria ser mais inteligente: ao invés de escolher um lado entre EUA e China, o Brasil deve escolher seu papel.
A oportunidade aqui é transformar essas reservas em cadeias de valor locais, empregos qualificados e liderança em soluções climáticas. A mineração em águas profundas, por sua vez, exige rigor ambiental, arcabouço legal robusto e diplomacia ativa — todos atributos que o Brasil pode construir, e o o RS poderia liderar esse novo capítulo.
A energia, o comércio e a segurança global estão se reformulando em torno dos minerais críticos. Não é apenas sobre explorar o subsolo oceânico. Trata-se de afirmar um novo modelo de desenvolvimento: verde, soberano e baseado em conhecimento.
Nesse contexto, o RS poderia ser mais do que espectador, poderia ser protagonista. Estamos prontos para isso?




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