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É mais caro não agir: quanto custa esvaziar a COP30

  • 3 de fev.
  • 4 min de leitura

Por Eric Fernando Boeck Daza


Belém recebe a primeira COP realizada em plena Amazônia sob um cenário que dispensa metáforas: ondas de calor, eventos extremos recentes na região e ruas ocupadas por povos indígenas, jovens e moradores urbanos. Dentro do centro de convenções, porém, o debate se concentra em parágrafos entre colchetes, fórmulas sobre combustíveis fósseis, metas para 2035 e regras de financiamento.

A questão central que deveria orientar essas escolhas é direta: quanto custa esvaziar a COP30? Os principais relatórios internacionais convergem numa mensagem incômoda: ao adiar decisões estruturais, o mundo “economiza” alguns bilhões em ação climática imediata, mas assume uma conta de dezenas de trilhões de dólares por ano em danos nas próximas décadas.


Os dados mais recentes da ONU indicam que, mesmo se todas as contribuições nacionalmente determinadas (NDCs) atuais forem implementadas integralmente, a trajetória global é temperaturas acima do limite de 1,5 °C de aquecimento neste século. Para chegarmos lá, seriam necessários cortes de cerca de 55% nas emissões até 2035, em relação a 2019; para ficar abaixo de 2°C, aproximadamente 35%. Hoje, nenhum dos textos garante essa inflexão de rota.

Ao mesmo tempo, um estudo recente publicado na Nature estima que o aquecimento já “contratado” pelo sistema climático é suficiente para reduzir em torno de 19% a renda global até meados do século, em comparação com um cenário sem mudança do clima. Isso corresponde são impactos em infraestrutura, agricultura, saúde, produtividade e perdas de capital. 

Se a mitigação define a temperatura futura, a adaptação define quem estará em condições de lidar com ela. O Adaptation Gap Report 2025 projeta que os países em desenvolvimento precisarão de cerca de US$ 310 bilhões por ano em 2035 para medidas de adaptação, contudo o fluxo efetivo de financiamento público internacional hoje está na ordem de US$ 26 bilhões por ano, ou seja, um hiato superior a 10 vezes.


Essa discrepância convive com iniciativas como o “Baku to Belém Roadmap to 1.3T”, apresentado pelas presidências de COP29 e COP30, que propõe mobilizar pelo menos US$ 1,3 trilhão anuais em financiamento climático até 2035, combinando recursos públicos, bancos multilaterais e capital privado. É um contraste impressionante entre a ambição do roteiro e o ritmo real.


Os impactos econômicos da inação também já aparecem com clareza no mundo do trabalho e na saúde pública. O Lancet Countdown 2025 registra que o calor extremo em 2024 resultou na perda de cerca de 640 bilhões de horas potenciais de trabalho, com perdas de produtividade estimadas em US$ 1,09 trilhão, aproximadamente 1% do PIB global. Essas perdas concentram-se em setores intensivos em trabalho físico ao ar livre – agricultura, construção, parte da indústria e serviços – e atingem de forma desproporcional países tropicais e grupos de menor renda.

Em paralelo, cresce o número de mortes e internações associadas a ondas de calor, secas, enchentes e doenças sensíveis ao clima. Para países como o Brasil, essas tendências significam pressão sobre sistemas de saúde, queda de produtividade, aumento de volatilidade em preços de alimentos e maior frequência de choques fiscais ligados a desastres.


É nesse contexto que a discussão sobre “esvaziar ou não” a COP30 precisa ser conectada aos temas efetivamente na mesa de Belém. Um resultado fraco hoje teria, pelo menos, três características principais.

A primeira diz respeito às metas para 2035. A conferência discute a consolidação de um “marco 2035” que oriente políticas nacionais na próxima década. Se o texto final não reconhecer de forma clara a necessidade de cortes ao menos suprior a 35% até 2035, a comunidade internacional estará, na prática, aceitando uma trajetória superior de 1,5°C. Para o Brasil e outros países tropicais, essa diferença se traduz em maior ocorrência de extremos de chuva, secas prolongadas e ondas de calor com impactos diretos sobre energia, agricultura e cidades.

A segunda dimensão é a nova meta coletiva quantificada de financiamento climático (NCQG) e sua articulação com o Baku–Belém Roadmap. O roteiro roteiro já aponta para US$ 1,3 trilhão anuais até 2035. Contudo, se Belém não produzir um cronograma verificável para o aumento do financiamento, com marcos intermediários e priorização explícita de adaptação para países mais vulneráveis, a distância entre promessas e realidade tende a ampliar a desconfiança no regime climático – especialmente no Sul Global, que já enfrenta a maior parte dos impactos.

A terceira é a linguagem sobre combustíveis fósseis. O rascunho discutido em Belém contrapõe formulações mais fortes – que mencionam eliminação progressiva a expressões mais vagas, como “transição para longe” dos fósseis. Em paralelo, as conferências recentes registram presença crescente de representantes da indústria de petróleo e gás. Sem uma mensagem inequívoca de que a expansão do consumo de energia fóssel é incompatível com as metas de 1,5–2°C, o sinal enviado continuará ambíguo.


Para o Brasil, uma conferência em plena Amazônia que não entrega metas alinhadas à realidade, um roteiro concreto de financiamento com foco em adaptação e um recado claro sobre o futuro dos fósseis fragiliza não apenas o regime climático multilateral, mas a própria narrativa de que o país pode liderar uma transição que combine ativos ambientais, segurança energética e competitividade industrial.


Belém não resolverá sozinha a crise climática. Mas pode marcar o momento em que as decisões econômicas passam a tratar a mudança do clima não como variável externa, e sim como eixo estruturante. Os números que quantificam o custo de não agir já estão disponíveis, em relatórios amplamente divulgados. A decisão política, em Belém, é outra: quem vai pagar essa fatura – e por quantas décadas mais vamos aceitar uma economia que parece fazer contas apenas para o próximo balanço, e não para a próxima geração?


 
 
 

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