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100 dias sem Ormuz: quando eficiência vira fragilidade

  • 19 de ago.
  • 4 min de leitura

A crise no estreito mostra que a economia global confundiu baixo custo com segurança. Para o Brasil, a transição energética precisa ser também uma política de resiliência econômica. 

Por Eric Fernando Boeck Daza

 

Há cem dias, uma das principais rotas da economia mundial deixou de operar normalmente. O Estreito de Ormuz, passagem entre Irã e Omã por onde circula uma parcela decisiva do petróleo e do gás natural liquefeito negociados no mundo, ficou contestado e parcialmente bloqueado. Navios desviados, cargas retidas, seguros mais caros e fretes pressionados revelaram algo que os modelos econômicos costumavam tratar como detalhe: a economia global depende de poucos corredores físicos para continuar funcionando.

 

O problema não é apenas o preço do barril. Esse é o primeiro efeito, o mais visível. O segundo é mais profundo: quando uma rota crítica fica contestada por semanas, empresas deixam de saber quando a carga chega, seguradoras recalculam o risco, armadores reduzem operações e governos percebem que segurança energética não se mede apenas em barris disponíveis. Mede-se também em rotas, estoques, contratos, redundância logística e capacidade de substituição.

 

Ormuz é o maior exemplo dessa vulnerabilidade. Segundo a Agência Internacional de Energia, quase 20 milhões de barris por dia de petróleo e derivados foram exportados pelo estreito em 2025. A Administração de Informação de Energia dos Estados Unidos estima que cerca de um quinto do comércio global de gás natural liquefeito também passou por ali em 2024. É uma artéria estreita para uma economia gigantesca.

 

Durante décadas, a globalização premiou eficiência. Cadeias just-in-time, estoques baixos, produção distribuída e logística barata reduziram custos e ampliaram mercados. Funcionaram bem enquanto portos, mares e rotas permaneceram previsíveis. O que os últimos cem dias mostram é o outro lado dessa equação: eficiência sem redundância vira fragilidade.

 

Esse choque não para na energia. Petróleo mais caro pressiona diesel. Diesel mais caro encarece frete. Frete mais caro chega aos alimentos, aos bens industriais e aos produtos importados. Gás mais caro afeta fertilizantes e insumos químicos. Uma crise localizada em uma passagem marítima acaba se espalhando pela inflação, pela competitividade das empresas e pela segurança alimentar.

 

A desaceleração já aparece nas projeções de comércio. A Organização Mundial do Comércio estimou que o comércio mundial de mercadorias cresceu 4,6% em 2025, mas projetou desaceleração para 1,9% em 2026, em um ambiente de tensões geopolíticas, custos logísticos e riscos sobre rotas críticas. Não é apenas volatilidade de preço. É aumento de prazos, seguros, estoques preventivos e incerteza que afeta decisões de investimento.

 

Para o Brasil, essa não é uma crise distante. O país tem petróleo, uma matriz elétrica limpa, liderança em biocombustíveis e enorme potencial renovável. Mas continua exposto ao preço internacional dos combustíveis, à importação de derivados, à dependência de fertilizantes, ao custo do transporte e à logística de longas distâncias. O Brasil é forte em energia, mas ainda vulnerável na forma como essa energia chega à economia real.

 

É aqui que o debate sobre transição energética precisa amadurecer. Energia limpa não elimina geopolítica. Painéis solares, turbinas eólicas, biocombustíveis, hidrogênio, minerais críticos e fertilizantes também têm cadeias de suprimento, rotas, contratos e riscos. A transição reduz algumas dependências, mas pode criar outras se for tratada apenas como substituição tecnológica. O ponto central é outro: transição energética deve ser política de segurança econômica.

 

O Brasil tem uma vantagem que poucos países combinam. Pode produzir petróleo, expandir biocombustíveis, gerar eletricidade renovável em larga escala, desenvolver biometano, avançar em combustíveis sustentáveis e criar novas cadeias industriais associadas à descarbonização. Mas vantagem natural não é estratégia. Estratégia exige escolha, coordenação e prazo.

 

A primeira medida é entender e tornar publico nossa vulnerabilidade energética e logística. Ministérios e órgãos do governo poderiam identificar onde o Brasil é mais exposto a choques externos: diesel, derivados, fertilizantes, gás natural liquefeito, frete marítimo, rotas de importação, estoques e impactos inflacionários. Sem esse mapa, o país reage a cada crise como se fosse surpresa.

 

A segunda é transformar biocombustíveis e biometano em instrumentos de segurança de suprimento, não apenas de política climática. Diesel verde, biodiesel, etanol, biometano e combustível sustentável de aviação devem ser avaliados também por sua capacidade de reduzir importações, proteger cadeias logísticas e diminuir exposição ao preço internacional do petróleo. Isso exige metas realistas, infraestrutura, contratos de demanda e previsibilidade regulatória.

 

A terceira é tratar fertilizantes como agenda estratégica. O Brasil não pode ser potência agrícola e seguir passivo diante de choques de gás, frete e rotas marítimas. O país já possui base industrial, demanda agrícola e ativos energéticos para estruturar fertilizantes de baixo carbono, amônia renovável e contratos de longo prazo com cooperativas, tradings agrícolas e compradores internacionais. BNDES, Eco Invest, MAPA, MME e empresas de energia têm papel direto nisso.

 

A quarta é usar a crise como oportunidade diplomática e comercial. Europa e Ásia estão rediscutindo segurança de suprimento. O Brasil deveria estar oferecendo, de forma coordenada, produtos energéticos e industriais de menor risco geopolítico: biocombustíveis, combustíveis sustentáveis, fertilizantes de baixo carbono, minerais estratégicos processados com energia limpa e petróleo com menor intensidade de carbono e maior transparência regulatória. O mundo não busca apenas energia barata. Busca energia confiável.

 

Os cem dias de Ormuz deixam uma lição simples: segurança não é o oposto de transição energética. É uma de suas condições. O país que tratar energia limpa apenas como meta ambiental perderá parte da disputa. O país que transformar energia limpa em resiliência produtiva, logística e industrial terá vantagem.

Ormuz não é apenas um problema do Oriente Médio. É um espelho para o Brasil. Mostra que ter energia não basta. É preciso transformar energia em segurança produtiva, logística e industrial.

 

 
 
 

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