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Quanto mais forte o agro, mais o clima pesa no PIB

  • 19 de ago.
  • 5 min de leitura

O Brasil chega a uma safra recorde com crédito recorde e o agro em um quarto da economia. A etapa que falta é a resiliência, e a mudança do clima está antecipando esse prazo.


Por Eric Fernando Boeck Daza

Especialista em energia limpa, transição energética e mudanças climáticas


 O Brasil venceu a etapa mais difícil da agricultura tropical. Construiu, em poucas décadas, um setor capaz de produzir em escala global, e os números desta safra confirmam essa vitória. O governo lançou esta semana o Plano Safra 2026/2027, com R$ 525,1 bilhões em crédito para a agricultura empresarial, no momento em que a Conab projeta uma colheita de grãos de 358,6 milhões de toneladas, a maior de sua série histórica. O agronegócio respondeu por 25,13% da economia em 2025, segundo o Cepea e a CNA. Produção, financiamento e peso econômico avançam juntos.

 

A capacidade de resistir ao clima não avançou no mesmo ritmo. O país aprendeu a produzir mais, e ainda não aprendeu a perder menos. Essa é a próxima fronteira competitiva do agro brasileiro, e a mudança do clima está antecipando o prazo para construí-la. Quando um setor responde por um quarto da economia, a diferença entre produzir e proteger deixa de ser detalhe técnico. Uma quebra de safra que antes ficava restrita ao produtor hoje se propaga para preços, renda regional, exportações e contas públicas.

 

O custo dessa lacuna já aparece na mesa do brasileiro. De cada dez reais a mais que a família pagou pela comida em 2024 por causa da inflação de alimentos, perto de três vieram de seca e chuva fora de hora, segundo a LCA 4intelligence. O risco climático no campo não termina na lavoura. Ele chega ao orçamento doméstico, e pesa mais sobre quem ganha menos. O clima em mudança é o processo de fundo, e o El Niño é apenas a forma que ele assume neste ciclo.

 

O mercado já começou a precificar o próximo choque. Em junho de 2026, pela primeira vez desde 2024, o Banco Central voltou a incluir o El Niño na consulta a economistas, e o risco entrou nas projeções de inflação antes mesmo de a safra começar. O fenômeno voltou ao radar oficial. Boletim conjunto de órgãos oficiais, entre eles INMET, INPE, ANA, Cemaden, SGB e Sedec, divulgado no fim de junho, aponta probabilidade acima de 90% de permanência do El Niño até pelo menos o início de 2027, com chuva acima da média no Sul e abaixo da média no centro-norte para o trimestre de julho a setembro. No mesmo ato em que apresentou o Plano Safra, o Ministério da Agricultura instalou um grupo de trabalho para acompanhar os efeitos do fenômeno sobre a produção. O reconhecimento do risco abre o caminho. Falta convertê-lo em proteção.

 

A conta de não construir essa proteção a tempo não é hipotética. O Rio Grande do Sul, um dos grandes estados agrícolas do país, acumulou R$ 117,8 bilhões em perdas associadas à falta de chuva entre 2020 e 2024, em valores corrigidos, na estimativa da Farsul. Só na safra 2024/2025, a estiagem derrubou a produção gaúcha de soja em 17,4%, em uma sequência intercalada pela enchente daquele ano, que atingiu lavouras, silos e estradas. O estado que ajuda a sustentar a potência do agro mostra o que acontece quando a resiliência fica para trás da capacidade de produzir.

 

A próxima fronteira do agro brasileiro não é apenas produzir mais nos anos bons. É perder menos quando o clima não coopera. O país competiu globalmente a partir de terra, tecnologia e produtividade. A vantagem dos próximos anos dependerá de uma quarta variável, a capacidade de atravessar seca, excesso de chuva e calor sem transformar cada evento em quebra de safra e renegociação de dívida. Como fornecedor central de alimentos para o mundo, o Brasil carrega essa equação para fora de suas fronteiras, num momento em que a segurança alimentar voltou ao centro da agenda internacional.

 

O capítulo da resiliência pode ser escrito com as alavancas que já estão na mesa. O Plano Safra é a maior delas. Dos R$ 525,1 bilhões anunciados, R$ 384,9 bilhões vão para custeio e comercialização e R$ 140,2 bilhões para investimentos em armazenagem, irrigação, modernização e eficiência produtiva. Parte desse volume já se dirige a frentes que reduzem perda. A oportunidade está em dar a essa agenda o mesmo peso do custeio, fazendo do crédito um instrumento de produção e de resiliência ao mesmo tempo.

 

Os instrumentos técnicos também já existem. O Zoneamento Agrícola de Risco Climático, mantido pela Embrapa e pelo MAPA há trinta anos, orienta época de plantio, solo e cultivar para mais de 40 culturas e, desde a safra 2025/2026, condiciona o crédito de custeio acima de R$ 200 mil em linhas com recursos controlados. Sua nova geração incorpora os níveis de manejo do solo, reconhecendo práticas que a ciência associa a menor perda hídrica, como o plantio direto e a cobertura permanente, que melhoram a retenção de umidade e amortecem tanto a seca quanto a chuva intensa. Esse tipo de resiliência se constrói ao longo de anos, e não se improvisa quando o evento climático chega, o que torna a antecipação ainda mais decisiva.

 

O seguro rural é a peça que mais precisa acompanhar a escala da produção. A área coberta pelo Programa de Subvenção ao Prêmio do Seguro Rural caiu de 7,1 milhões para 3,2 milhões de hectares entre 2024 e 2025, conforme dados do MAPA reunidos pela FGV-Agro. A proteção recuou justamente quando o risco climático cresceu. A reforma do programa, em tramitação no Congresso, prevê um fundo de catástrofe e maior previsibilidade orçamentária, condições para que o setor privado assuma risco em escala e para que o seguro deixe de ser apenas indenização e passe a organizar prevenção.

 

Construir resiliência também exige tratar o país como ele é, desigual diante do mesmo fenômeno. O El Niño pode trazer chuva em excesso no Sul, estiagem no centro-norte e calor fora de época em outras regiões, exigindo respostas distintas para grãos, café, cana e leite. Uma política nacional na ambição precisa ser regional na execução, e é aí que o zoneamento e a informação climática deixam de ser consulta técnica para virar planejamento, com crédito, seguro e logística se movendo quando a probabilidade de seca ou de chuva intensa cruza um limiar, antes do desastre consumado.

 

O agro brasileiro chegou ao ponto em que sua força é também sua exposição. A escala que o tornou decisivo para o PIB tornou o país responsável por proteger essa produção diante de um clima em mudança. O Brasil já provou que sabe produzir em escala global. O capítulo que falta, e que a próxima década vai cobrar, é o da resiliência. Escrevê-lo agora, com o crédito, o seguro e o conhecimento que já existem, é o que vai garantir que a próxima safra recorde não dependa apenas da sorte do clima.

 
 
 

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