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Ormuz está mudando o valor da safra brasileira

  • 19 de ago.
  • 3 min de leitura

O Brasil construiu uma defesa poderosa contra choques de gasolina. Ormuz revelou que ela ainda é muito menor no diesel, justamente onde o país mais depende do exterior.


Por Eric Fernando Boeck Daza

Especialista em energia limpa, transição energética e mudanças climáticas


Quando a guerra volta a ameaçar o tráfego pelo Estreito de Ormuz, os mercados olham para o preço do petróleo. O Brasil respondeu olhando para a composição da própria gasolina. Nesta semana, o governo elevou de 30% para 32% a fração de etanol na mistura. Mantida por um ano, a mudança reduziria em cerca de 900 milhões de litros a necessidade de gasolina importada, segundo o Ministério de Minas e Energia. É quase o volume de gasolina vendido em Porto Alegre, cidade de 1,3 milhão de habitantes, ao longo de dois anos.

 

A decisão mostra a força de uma capacidade que o Brasil levou cinquenta anos para construir. E revela seu limite. O país consegue reagir depressa a um choque na gasolina, mas segue muito mais exposto no diesel, o combustível que move sua economia.

 

O pano de fundo é um paradoxo. O Brasil é uma potência na produção de petróleo, com cerca de 4,3 milhões de barris por dia, segundo a ANP, e ainda assim importa parte do combustível que consome. Produzir petróleo não é produzir todos os derivados de que a economia precisa: o perfil do óleo, as refinarias e a logística fazem o país exportar cru e importar diesel. É a imagem incômoda de um produtor de energia que embarca o que tem de sobra e compra o que lhe falta. Em abril, cerca de um quarto do diesel vendido no Brasil veio de fora, segundo a ANP, e a Rússia respondeu por quase metade do volume importado. Durante três anos, o produto russo com desconto pareceu uma vantagem comercial. Bastou a guerra para revelar o risco por trás da conta barata.

 

A pressão veio de duas frentes ao mesmo tempo. Ormuz, por onde passam normalmente cerca de vinte milhões de barris diários de petróleo e derivados, um quinto do consumo mundial, voltou a ser ameaçado pela guerra no Golfo. Ao mesmo tempo, a guerra na Ucrânia levou a Rússia a restringir a exportação de diesel, depois que ataques atingiram suas refinarias. Diesel e querosene ficaram particularmente expostos, porque a crise não atingiu apenas a produção de petróleo, mas o refino e a circulação dos combustíveis prontos.

 

O que permite ao Brasil responder é sua safra, mas também todo o sistema construído em torno dela ao longo de cinquenta anos: Proálcool, usinas, etanol de cana e de milho, mistura obrigatória e uma frota que troca de combustível no posto. É esse conjunto que deixa o país substituir depressa, quando o mercado externo aperta, uma parcela da gasolina que precisaria vir de fora. No diesel, a mesma lógica avançou menos, e por uma razão técnica: elevar a mistura de biodiesel é mais complexo do que elevar a de etanol, exige validação em motores e garantia de desempenho, e não se resolve por decisão administrativa. É a fronteira seguinte da mesma política, não uma lacuna esquecida. E é a que mais importa, porque o diesel move o frete, a colheita e a indústria, e um choque nele se espalha pela economia muito além do preço na bomba.

 

Vale completar essa fronteira porque a recompensa passou a ser também externa. Enquanto o mundo tenta reduzir a dependência do petróleo e desconfia de rotas que a guerra interrompe, o Brasil é um dos poucos países com um sistema pronto para substituir combustível fóssil por renovável em escala. Não é uma promessa de laboratório, é uma indústria que já funciona dentro de casa e pode fornecer para fora. É isso que dá à safra um valor novo. Ela deixou de ser apenas açúcar, ração e grão de exportação, e passou a ser, ao mesmo tempo, a segurança energética do país e uma alternativa concreta ao petróleo num mundo que precisa dela.

 

O primeiro choque do petróleo, nos anos 1970, produziu o Proálcool. O choque de agora revela uma tarefa diferente. O Brasil não precisa inventar outra resposta de emergência, precisa completar a que já construiu. A flexibilidade que hoje protege a gasolina tem de chegar ao diesel, onde a dependência externa é maior. Ormuz mudou o valor da safra brasileira. Falta transformar uma vantagem ainda parcial em estratégia nacional, o primeiro passo para ocupar um mercado que o mundo apenas começa a abrir.

 
 
 

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