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O problema não é só o El Niño. É o clima que ele encontra

  • 19 de ago.
  • 3 min de leitura

A cada El Niño, espera-se que a chuva venha e recomponha o que a seca levou. Num planeta mais quente, essa recomposição deixou de ser garantida: o ar evapora a água antes que ela reabasteça o solo, o rio e o reservatório. Para o Brasil, que move energia, água e safra com a volta das chuvas, isso muda o risco de base.


Por Eric Fernando Boeck Daza

Especialista em energia limpa, transição energética e mudanças climáticas


 Toda vez que o Pacífico esquenta, a manchete pergunta se vem um super El Niño. A pergunta supõe que o problema seja a força do fenômeno. Mas o El Niño é antigo e recorrente. O que mudou foi o clima em que ele chega. Durante muito tempo, a lógica era simples: a seca tirava água, e a estação chuvosa seguinte devolvia. O sistema se recuperava entre um golpe e outro. É essa recuperação que está deixando de acontecer.

 

A razão é um efeito concreto: demanda evaporativa. O ar mais quente puxa mais água do solo, dos rios e da vegetação. Quando a chuva volta, encontra um terreno que perde umidade mais rápido do que antes, e parte do que cai evapora em vez de recompor o estoque. A seca passa a durar mais e a ceder menos. Um estudo recente mostrou que, entre 2000 e 2021, a probabilidade de uma seca se recuperar caiu de 25% a 50% em relação ao século passado, e que pelo menos um terço dessa queda se deve à mudança climática provocada pelo homem.

 

É aqui que o papel do El Niño se inverte. Ele sempre foi também um indutor de chuva, e em muitas regiões a sua fase era esperada como alívio. A seca de 2011 a 2016 na Califórnia desfez essa expectativa: o super El Niño de 2015 e 2016, anunciado como o fim da estiagem, não a encerrou, porque o aquecimento havia elevado a demanda evaporativa acima do que a chuva conseguia repor. O El Niño que traz chuva já não garante o alívio que garantia, e o que traz seca chega sobre um solo que se recupera pior.

 

O Brasil tem pouca margem para tratar isso como problema dos outros, porque seu sistema inteiro depende da recuperação das chuvas. A Agência Nacional de Águas projetou queda de vazão em praticamente todas as bacias do país até 2040, acompanhada de temperaturas mais altas e evapotranspiração crescente, com sinais mais fortes no leste da Amazônia e no Nordeste. Não é cenário distante. Em 2023, a seca amazônica, agravada pela chegada do El Niño, levou o Rio Negro ao menor nível desde que há medição, em 1902. Quando o reservatório não se recompõe, a conta aparece longe da floresta: menos água armazenada é menos energia firme, mais acionamento de térmicas, tarifa mais alta e mais emissão. A mesma seca que seca o rio encarece a luz e aperta a safra, não porque um compense o outro, mas porque os três bebem da mesma recuperação que falhou.

 

O efeito é cumulativo. Cada seca deixa um déficit que a estação chuvosa seguinte não zera mais, e o próximo evento começa de um patamar pior. Um país que planeja contando com a recuperação plena entre as secas está planejando para um clima que já não existe.

 

Daí decorrem escolhas concretas, e nenhuma é esperar o fenômeno passar. A primeira é parar de tratar a seca como evento isolado e passar a tratá-la como linha de base que se desloca: o planejamento de energia, água e agricultura precisa assumir vazões médias menores e recuperação mais lenta, não a série histórica de um clima que ficou para trás. A segunda é proteger o que faz a água voltar. No caso do Brasil, a floresta em pé devolve umidade à atmosfera pela evapotranspiração, e o desmatamento reduz a chuva que reabastece bacias e reservatórios, conservar deve deixar de ser apenas pauta ambiental para virar segurança hídrica, alimentar e energética. A terceira é guardar margem antes de precisar dela, em armazenamento de energia, em estoque hídrico e em seguro agrícola acionado pela previsão, porque num sistema que se recupera pior, a folga que não foi criada na bonança não aparece sozinha na seca.

 

O El Niño vai passar, como sempre passou. O clima que ele encontra, não. A diferença é que esse clima devolve menos do que tira, e o intervalo entre um choque e outro deixou de ser tempo de recomposição. Para o Brasil, que transformou água em energia, em alimento e em vantagem, reconhecer isso a tempo é o que separa administrar a escassez de ser administrado por ela.

 

 
 
 

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