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Data centers ameaçam plano brasileiro para o hidrogênio verde

  • 19 de ago.
  • 5 min de leitura

O Brasil apostou na energia limpa para reindustrializar. Mas a regra criada para distribuir o acesso à rede pode privilegiar quem paga mais, e não quem gera mais desenvolvimento.


Por Eric Fernando Boeck Daza

Especialista em energia limpa, transição energética e mudanças climáticas


 

Uma das principais apostas industriais do Brasil para esta década tem nome técnico, powershoring, e uma premissa simples. O mundo precisa descarbonizar sua indústria, e quem tiver energia limpa, barata e abundante vai atrair as fábricas que precisam reduzir drasticamente suas emissões. Aço verde, hidrogênio, fertilizantes e alumínio se instalariam onde há sol e vento, de preferência no Nordeste, convertendo vantagem natural em emprego e cadeia produtiva. A tese é boa. O problema é que ela esbarrou em dois limites fora do roteiro. O primeiro é a rede de transmissão, que não cresceu no ritmo da demanda. O segundo é um concorrente que poucos imaginavam disputando essa mesma infraestrutura: os data centers.

 

Em 15 de junho, encerrou-se o cadastramento da primeira Temporada de Acesso, criada para ordenar quem entra em uma rede que ficou escassa. Os pedidos de conexão de data centers somavam 26,3 gigawatts em outubro de 2025, segundo a EPE, praticamente o mesmo que os 27,9 gigawatts destinados a projetos de hidrogênio e amônia. Juntos, passam de 54 gigawatts, quase quatro usinas de Itaipu e mais da metade do pico de carga do país. Boa parte não sairá do papel, mas o volume basta para pressionar uma rede que não foi planejada para isso nessa escala e nesse prazo. Os dois braços da aposta verde, o digital e o industrial, têm hoje tamanhos quase idênticos e disputam a mesma expansão, ainda que nem sempre o mesmo ponto: os data centers se concentram no Sudeste, o hidrogênio no Nordeste.

 

Daí a pergunta do título. Para o sistema elétrico, um megawatt é um megawatt. Mas a forma como o Brasil escolheu repartir esses megawatts contém uma assimetria que pouca gente examinou. Quando os pedidos superam a capacidade de um ponto da rede, a regra publicada em abril classifica os projetos pela maior oferta financeira por quilowatt de conexão. Vence quem se dispõe a pagar mais. E quem pode pagar mais não é, necessariamente, quem mais contribui para a estratégia que o país diz perseguir.

 

Os números explicam por quê. Na produção de hidrogênio por eletrólise, a eletricidade responde por 50% a 70% do custo final e o produto sai a duas ou três vezes o preço do convencional, viável só com energia barata e apoio público. Como vende uma commodity a preço de mercado, ele não repassa um custo extra de conexão, e isso limita o lance que pode fazer. Num data center de inteligência artificial a conta é outra: a energia é só 7% do custo, contra cerca de 60% dos servidores e chips e cada megawatt de computação rende muito. Garantir a conexão destrava esse retorno, e ele suporta lances bem maiores. O prêmio em si não inviabiliza nenhum dos dois, pequeno diante de projetos de bilhões. O que difere é o teto: em um ponto disputado, o data center cobre lances que a indústria eletrointensiva não acompanha. O leilão cobra pela conexão, não pela energia. Ainda assim, tende a direcioná-la a quem menos depende da energia barata que o powershoring se propôs a oferecer.

 

O emprego mostra o que está em jogo na escolha. Dentro da planta, os dois empregam pouco, e o eletrolisador isolado, com cerca de 0,07 trabalhador por megawatt, fica abaixo de um data center, que mantém de 0,15 a 0,35. A diferença não está na planta, está no que cada conexão sustenta fora dela. Usado no país como insumo de aço, fertilizante e química, o hidrogênio alimenta essas cadeias: somada a cadeia inteira, da geração aos usos finais, a eletrólise sustenta de 4 a 5 empregos por megawatt, contra os 0,07 da planta isolada. O data center não desencadeia nada parecido. Entrega serviços estratégicos e infraestrutura de computação, mas não vira insumo de uma indústria física no país. Exportar a molécula com equipamentos importados desperdiça esse efeito e deixa quase tão pouco quanto armazenar dados. É essa diferença que a política industrial precisa enxergar, e que o maior lance não vê.

 

Nenhum desses usos é dispensável, e não cabe a um gabinete decretar que a fábrica vale mais que o servidor. O ponto é que o leilão decide por preço uma questão que é também energética, industrial e territorial, sem que exista, acima dele, qualquer orientação sobre prioridade. A portaria classifica os projetos principalmente pelo lance e dá preferência ao consumo sobre a geração, salvo diretriz específica do Ministério de Minas e Energia. Ela não traz, porém, orientação estratégica para comparar o valor econômico, energético e territorial de cada carga. Enquanto essa lacuna permanecer, o maior cheque terá peso decisivo sobre qual uso da energia limpa avança primeiro.

 

Preencher a lacuna não exige escolher vencedores por setor, e sim orientar a disputa pelo que cada projeto devolve ao sistema. Quem traz geração limpa adicional, bem localizada e com flexibilidade ou armazenamento, pode reduzir a pressão que provoca, em vez de apenas ampliar a demanda sobre a rede. Quem se instala onde e quando há excedente renovável recorrente, como em parte do Nordeste, aproveita o que hoje se perde, sem supor que toda energia cortada esteja sempre disponível. Eficiência hídrica e encadeamento local completam a régua. Por esse critério, um data center bem projetado pode passar à frente de uma indústria mal posicionada. O rótulo do setor não decide. A contribuição decide.

 

A divisão de papéis é clara. À política de acesso cabe proteger a rede e o consumidor, filtrar projetos especulativos e fazer com que cada projeto internalize a parcela adequada dos custos de rede atribuíveis à sua conexão. À diretriz estratégica do ministério, e ao Redata, regime de incentivo em tramitação no Senado, cabe definir o que o país exige em troca da energia, da rede e do benefício fiscal que oferece. Conectar é engenharia. Decidir o que se prioriza é política industrial, e isso não se delega a um leilão de preço.

 

O Brasil passou anos vendendo ao mundo a ideia de que sua energia limpa seria a alavanca da reindustrialização. A corrida dos data centers coloca essa promessa diante de seu primeiro grande conflito de alocação. O maior lance indica quem está disposto a pagar mais por uma conexão. Não responde que cadeia produtiva será criada, quanto da vantagem energética ficará no país, nem qual projeto ajuda a baixar o custo futuro da rede. A primeira Temporada de Acesso vai começar a transformar essas escolhas em decisões concretas sobre quem poderá ocupar a rede. Antes que isso avance, o país precisa decidir se sua energia limpa será apenas um insumo disputado no preço ou uma estratégia de desenvolvimento.

 

 
 
 

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