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O BID viu a oportunidade. O Brasil ainda precisa decidir entre mina e cadeia

  • 9 de abr.
  • 4 min de leitura

Em Assunção, o banco lançou a iniciativa mais ambiciosa da região em minerais críticos. O Brasil tem ativos reais e já começou a se mover. Falta o mais difícil: escolher onde competir.


Por Eric Fernando Boeck Daza


Na semana passada, em Assunção, o Banco Interamericano de Desenvolvimento fez mais do que lançar uma iniciativa. Fez um diagnóstico. Ao anunciar o IDB LAC Minerals durante suas Reuniões Anuais, o banco reconheceu publicamente o que os dados já mostravam: a corrida global por minerais críticos mudou de fase. Não é mais uma disputa apenas por reservas no subsolo. É uma disputa por refino, processamento, infraestrutura, tecnologia, financiamento de longo prazo e contratos de offtake. O próprio presidente Ilan Goldfajn resumiu com precisão: "A região aporta recursos e oportunidades; o mundo aporta tecnologia, capital e contratos de longo prazo. O BID conecta os dois lados."

 

O apoio ao lançamento confirmou que não se trata mais de conversa setorial. O Japão anunciou US$ 20 milhões. Canadá, Finlândia e Itália sinalizaram cooperação técnica e instrumentos financeiros. Treze países, entre eles Estados Unidos, Alemanha, Reino Unido, Espanha e Suécia, expressaram respaldo formal. Quando economias tão distintas convergem num mesmo anúncio, o sinal é claro: minerais críticos deixaram de ser tema de mineração e passaram a ser tema de segurança econômica, política industrial e reposicionamento geopolítico simultaneamente.

 

A América Latina chega a essa disputa com dois dados ao mesmo tempo. O confortável: a região responde por cerca de 30% da oferta global de minerais e por aproximadamente US$ 180 bilhões anuais em exportações de metais. O desconfortável: a maior parte desse valor ainda sai daqui em forma bruta ou semibruta. A IEA projeta que a região pode alcançar US$ 154 bilhões em valor combinado de mineração e refino, mas lembra que o refino global segue altamente concentrado, com a participação da China projetada para subir de 45% para 50% do total mundial. A geologia está conosco. A etapa mais rentável da cadeia, em grande medida, ainda não.

 

É nesse contexto que o Brasil entra, não como coadjuvante, mas como o caso mais complexo e mais decisivo da região.

 

O país já se moveu, e isso importa reconhecer. No início de março, o Ministério de Minas e Energia publicou a edição 2026 do Guia do Investidor para Minerais Críticos, com foco explícito em transformação mineral, infraestrutura, PD&I e parcerias internacionais, não apenas em extração. A chamada pública de BNDES e Finep para transformação de minerais estratégicos recebeu 124 propostas de 136 grupos econômicos, somando R$ 85,2 bilhões em demanda potencial de investimento. O foco era capacidade produtiva para materiais processados ligados à transição energética. O mercado respondeu com força. O problema brasileiro, portanto, não é falta de interesse privado nem ausência de instrumentos públicos. É coordenação entre eles.

 

Porque, ao mesmo tempo, o país exporta quase todo o seu lítio como concentrado para processamento externo. O Projeto de Lei que institui a Política Nacional de Minerais Críticos tramita no Congresso desde 2021. E o debate recente sobre o Fundo Clima, que admite financiar beneficiamento e refino, mas excluiu a lavra da mineração, provocando reação imediata do setor, expôs algo mais fundo: o Brasil ainda não resolveu internamente como a cadeia mineral se encaixa na sua estratégia de transição energética e desenvolvimento industrial. Pode-se discutir qual decisão é a correta. O ponto mais revelador, porém, é que a discussão ainda está acontecendo.

 

Há 15 anos atuando em energia e transição em projetos pelo Brasil e pela América Latina, aprendi que o principal gargalo nem sempre é o recurso, seja ele mineral ou tecnológico. O gargalo quase sempre é a decisão correta sobre o que fazer com ele. O Brasil tem nióbio em abundância há décadas e ainda não construiu uma cadeia de aço especial à altura disso. Tem grafita e terras raras em volume relevante e exporta concentrado. A história se repete não por falta de oportunidade, mas por falta de coordenação, seja entre congresso e executivo, ou entre setor privado e publico, o que leva a uma falta de visão clara e estratégica.

 

Essa escolha agora é mais urgente porque a janela é mais estreita. Não porque os minerais vão acabar, mas porque a geopolítica não espera. Os acordos de offtake de longo prazo que definem quem vai refinar, processar e agregar valor estão sendo negociados agora. Os investimentos em plantas de separação e produção de materiais de catodo estão sendo anunciados agora. Os países que chegarem tarde a essa rodada receberão, na melhor das hipóteses, o papel que a América Latina sempre ocupou: fornecedor da primeira etapa.

 

O Brasil não precisa, nem deveria, defender verticalização total de toda a cadeia mineral. Isso seria irrealista. O que precisa é definir, com critério e sem euforia, em quais segmentos tem condições reais de competir: onde combina recurso, base industrial existente ou potencial, energia competitiva, financiamento público e escala de mercado. E usar cada acordo internacional, cada projeto de investimento e cada instrumento do BNDES como alavanca para transferência tecnológica, instalação de capacidade produtiva e geração de emprego qualificado, não como mera validação do que já existe.

 

O BID fez sua parte ao nomear o problema e montar uma plataforma para atacá-lo. Agora a pergunta passa inteiramente para o Brasil: quer entrar nessa corrida novamente como fornecedor de subsolo ou como arquiteto de cadeia?

 

O BID viu a oportunidade. O Brasil agora precisa mostrar que viu mais do que a mina.

 
 
 

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