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O Brasil já tem energia limpa. Falta transformá-la em desenvolvimento regional

  • 9 de abr.
  • 5 min de leitura

O país ainda opera sob a lógica da expansão renovável e agora precisa entrar na fase da integração. Sem rede, flexibilidade e captura local de valor, a vantagem verde brasileira continuará parcialmente desperdiçada.


Por Eric Fernando Boeck Daza


A matriz elétrica brasileira fechou 2024 com 88,2% de fontes renováveis, uma das mais limpas do mundo. Boa parte dessa conquista tem endereço: o Nordeste, que lidera com ampla margem a geração eólica no Brasil, responde pela fatia mais expressiva da expansão renovável da última década. Mas a rede que deveria escoar essa energia não acompanhou. A capacidade de exportação da região é de 13,5 GW. O planejamento decenal da EPE estima que precisa chegar a 24 GW para absorver mais de 60 GW de geração eólica e solar projetados para o Norte e o Nordeste na próxima década. Enquanto essa infraestrutura não existe, o país desperdiça parte do que produz: estimativas de mercado apontam R$ 6,5 bilhões em perdas com curtailment só em 2025. Turbinas paradas com vento, painéis desligados com sol. O Brasil tem energia limpa de sobra. O que ainda não tem é sistema para entregá-la, nem estratégia para transformá-la em desenvolvimento onde ela é gerada.

 

Esse é o problema conhecido. O menos conhecido é mais grave. Os grandes complexos eólicos e solares que sustentam esses números se instalaram em municípios do semiárido e do cerrado nordestino. A energia é produzida ali, exportada por linhas de transmissão e consumida a milhares de quilômetros. A renda, o emprego qualificado e a atividade industrial ficam do outro lado da linha. Ao longo de duas décadas de expansão, o país tratou a geração renovável como política de oferta de energia. Não como estratégia de desenvolvimento territorial. A distância entre as duas coisas é o problema que importa agora.

 

O desenvolvimento que ficou no papel

O Piauí tem um dos maiores parques eólicos da América. A Bahia é um dos principais polos eólicos do país. O Rio Grande do Norte concentra cerca de 76% da geração eólica estadual em dez municípios. A renda domiciliar per capita dessas regiões em 2025: Piauí R$ 1.546, Bahia R$ 1.465, Rio Grande do Norte R$ 1.819. Média nacional: R$ 2.316. Na Bahia, abaixo do salário-mínimo.

 

Um estudo da Universidade Federal do Ceará com municípios que receberam parques eólicos encontrou aumento de 20% no PIB per capita e 23% nos empregos formais. Mas os efeitos se concentram na fase de construção. Quando a obra termina, o impulso se dissipa. O SENAI, em análise de dez municípios potiguares, encontrou o mesmo: indicadores econômicos subiram, indicadores sociais ficaram onde estavam.

 

O problema é o modelo de implantação, não a fonte de energia. Grandes complexos geram eletricidade exportável, não ecossistemas produtivos. O país mede cada megawatt instalado com precisão e não mede quanto disso se converte em renda permanente ou capacidade industrial no território.

 

Powershoring: a demanda já existe

O Brasil gasta boa parte do seu planejamento energético tentando resolver como levar elétrons do Nordeste para o Sudeste. A pergunta que não se faz é a inversa: por que não levar a indústria para onde a energia já está? Power-shoring é isso, instalar atividade produtiva junto à fonte de energia barata, em vez de transportar eletricidade por milhares de quilômetros até centros de consumo consolidados. Não se trata apenas de data centers ou plantas de hidrogênio, embora esses já existam: os pedidos de conexão à Rede Básica para essas duas cargas somam 54,2 GW até 2038, mais da metade do pico histórico de consumo do país. Trata-se de pensar fertilizantes, amônia verde, processamento de minerais, siderurgia de baixo carbono, dessalinização, cadeias que hoje se instalam longe da energia porque o planejamento nunca perguntou se poderiam estar perto. O Ceará projeta 18,5 GW em grandes cargas. O Piauí, 3,6 GW. A demanda existe. O que não existe é uma política que conecte essa demanda à transformação produtiva dos territórios que cedem vento e sol.

 

Hoje isso acontece de forma fragmentada. Projetos de hidrogênio no Nordeste, data centers em São Paulo. A infraestrutura planejada responde à lógica de exportação de elétrons, não de criação de polos industriais. O Rio Grande do Sul ensaia caminho diferente, edital para hidrogênio verde, com um dos primeiros projetos de abastecimento de H2V do país, mas sem articulação federal o efeito permanece localizado.

 

De política energética a política territorial

A EPE modela cenários de geração a dez anos. O ONS projeta fluxos inter-regionais. O IBGE e o SENAI já produziram análises detalhadas de renda e emprego nos municípios que recebem parques renováveis. Os dados existem e o planejamento setorial funciona. O que não funciona é a conexão entre as duas pontas: a expansão do sistema elétrico avança com método, a transformação dos territórios que a sustentam fica por conta do acaso. Geração, transmissão e atração de demanda industrial seguem cronogramas que não se cruzam. O setor elétrico cresce, o território assiste.

 

O sinal locacional na tarifa de transmissão, que a ANEEL implementa progressivamente, poderia orientar investimento produtivo para áreas com excedente renovável. Opera como mecanismo tarifário, não como instrumento de atração. O marco do hidrogênio de baixa emissão de carbono prevê agregação de valor nacional, mas ainda não diz onde. O planejamento já identifica 54 GW em grandes cargas projetadas, mas será preciso vincular essa expansão a compromissos de desenvolvimento nos territórios que cedem o recurso.

 

A lacuna não é de informação. É de decisão política. Quando se licita um bloco de geração renovável numa região com renda abaixo da média nacional, qual é o compromisso concreto de que aquele investimento vai deixar mais do que arrendamento de terra e emprego de obra? Essa pergunta não aparece nos leilões, não aparece no licenciamento, não aparece na regulação.

 

A escolha que ainda está aberta

A transição energética brasileira já resolveu o problema que consome a maior parte do esforço político e financeiro de outros países: gerar energia limpa em escala. A pergunta que o país ainda não respondeu é o que fazer com essa energia além de exportá-la entre regiões. O Nordeste que produz os megawatts segue com renda abaixo do salário-mínimo em alguns dos seus estados mais importantes. O Sul que consome busca criar demanda própria em escala piloto. No meio, um sistema que trata território como detalhe logístico de implantação, não como destino de uma política de desenvolvimento. O Brasil já fez com minério, com soja e com petróleo o ciclo de exportar riqueza natural em estado bruto enquanto as regiões produtoras ficavam para trás. Com energia renovável, a escolha ainda está aberta. Mas não por muito tempo e não sem decisão.

 

 
 
 

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