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O calor extremo já custa caro ao Brasil. Um Plano Nacional de Resfriamento chega na hora certa

  • 9 de abr.
  • 3 min de leitura

Ao lançar um plano nacional de resfriamento, o Brasil começa a tratar o calor extremo como o que ele já é: um problema de produtividade, saúde, cidades e desenvolvimento e não apenas de clima


Por Eric Fernando Boeck Daza


Na semana passada, o Brasil deu início à elaboração do seu primeiro Plano Nacional de Ação pelo Resfriamento. O gesto pode parecer restrito ao universo de especialistas em energia ou refrigeração. Não é. O que está em jogo é mais amplo: é um sinal que o país reconhece que calor extremo não é apenas consequência ambiental da mudança do clima. É um problema econômico, urbano e social, e um problema que já chegou.

 

O Brasil tem dados para sustentar essa urgência. Em 2024, a temperatura média anual chegou a 25,02°C, a mais alta desde o início da série histórica do INMET, em 1961, com desvio de 0,79°C acima da média de 1991 a 2020. Em 2025, o Cemaden registrou sete ondas de calor no território nacional ao longo do ano. Não se trata de anomalias isoladas. O calor extremo passou a fazer parte, com frequência crescente, do cotidiano brasileiro e a cobrar conta em setores que o país não pode perder.

 

E essa conta já está aqui. Perdas de produtividade, pelas ondas de calor, já impedem trabalhos de serem realizados. Excesso de calor, já cancelam aulas de milhares de crianças, especialmente em escolas públicas. Internações hospitalares aumentam com o calor e atingem especialmente crianças e idosos. Norte, Nordeste e Centro-Oeste concentram os impactos mais severos, em setores como agricultura e construção civil. Incluídas as perdas no trabalho informal, setor sem proteção regulatória e com alta exposição, esse impacto é ainda maior. Resfriamento sustentável, portanto, não é pauta climática de nicho. É pauta de economia real.

 

É aqui que o Plano Nacional de Resfriamento ganha relevância estratégica. E ele chega com lastro internacional. O Global Cooling Watch 2025, lançado pela UNEP em Belém durante a COP30, concluiu que a demanda global por resfriamento pode mais que triplicar até 2050 no cenário tendencial, quase dobrando as emissões do setor, que poderiam chegar a 7,2 bilhões de toneladas de CO₂e. Mas o mesmo relatório aponta o caminho oposto: uma trajetória de resfriamento sustentável poderia cortar essas emissões em 64% e evitar trilhões de dólares em custos futuros de energia e infraestrutura elétrica. Quase dois terços desse potencial vêm de soluções passivas e de baixa energia, não de equipamentos.

 

Esse detalhe tem implicações diretas para a política pública brasileira. Significa que a resposta mais inteligente ao calor começa antes do aparelho: no projeto do edifício, na cobertura vegetal, na largura da calçada, na arborização do bairro. Num país tropical, com grandes populações em habitações precárias, alta informalidade e cidades com baixo índice de sombreamento urbano, isso não é detalhe técnico. É a diferença entre uma política de resfriamento que funciona e uma que apenas amplia o parque de equipamentos, pressionando o sistema elétrico, encarecendo a conta de luz e aprofundando a desigualdade de acesso.

 

O Brasil tem base para fazer essa diferença. O país já executa a Etapa III do Programa Brasileiro de Eliminação dos HCFCs e iniciou a implementação vinculada à Emenda de Kigali, com redução de 10% no consumo de HFCs prevista para 2026–2032. Na COP30, 185 cidades aderiram ao Beat the Heat, iniciativa da Presidência brasileira e da Cool Coalition da UNEP para traduzir os compromissos do Global Cooling Pledge em ação local, combinando avaliação de risco térmico, soluções baseadas na natureza e mobilização de financiamento. Assim, o Plano Nacional de Resfriamento PNAR não nasce numa folha em branco. Nasce com um ecossistema regulatório e político em movimento e com a oportunidade de dar coerência nacional ao que até aqui avançou de forma fragmentada.

 

Esse talvez seja o ponto mais importante. O calor extremo atravessa múltiplas áreas ao mesmo tempo: saúde pública, sistema elétrico, habitação, mobilidade, segurança do trabalho, aprendizagem escolar. Cada uma dessas áreas enxerga uma parte do problema, mas nem sempre a mesma. Um plano nacional bem construído pode ajudar o país a responder de forma menos compartimentada, orientada por eficiência, acesso e prevenção, em vez de improviso reativo.

 

O calor deixou de ser abstração estatística para a maioria dos brasileiros. Ele é experiência cotidiana, sentida no transporte, no local de trabalho, em casa, na escola. Isso abre uma janela política rara: a de construir uma agenda climática que dialogue com vida real, sem precisar convencer ninguém de que o problema existe.

 

O valor dessa agenda não será medido em laudas de plano nem em unidades de aparelho incentivado. Será medido em escolas menos sufocantes, postos de saúde mais funcionais em dias extremos, casas populares que retêm menos calor e trabalhadores menos expostos ao risco térmico.

 

O Plano Nacional de Resfriamento é o início dessa construção. E começar essa conversa, com seriedade e visão de longo prazo, é exatamente o que o momento exige.

 
 
 

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